“A adolescência!
Agora eu cheguei em um ponto melindroso, vou falar sobre uma fase pela qual você está passando e tudo que sei sobre ela é o que aconteceu comigo quando também passei pela mesma fase, há muito tempo atrás, o que não é a mesma coisa porque eu sei que os costumes mudam com uma velocidade vertiginosa, ainda mais nesse século XX. O que eu posso dizer é que o homem tem passado por essa fase há milênios. Talvez tenha um efeito relaxante o fato de saber que esse turbilhão de emoções esquisitas também acontece e aconteceu com todas as outras pessoas. Isso não vai tornar a adolescência mais fácil, pois sem sofrimento não existe crescimento. Mas é possível que você consiga enxergar uma saída.

Como é difícil falar da adolescência, vou falar primeiro sobre a próxima fase. De uma maneira ou de outra a pessoa cresce, fica adulta e precisa achar um lugar e uma maneira para viver. O problema é que não existe mais um lugar garantido para cada novo adulto, cada um vai ter de conquistar uma posição dentro da sociedade.
Vou mostrar o que geralmente acontece na prática. Eu sei que esse assunto é todo muito misturado, mas só para exemplificar, vou dividir as escolhas humanas em vários caminhos diferentes. Essa escolha é inconsciente, começa na adolescência e dependendo dos acontecimentos, a pessoa vai trilhando um caminho ou outro:

O caminho do conformismo: há os que se conformam com a perda da liberdade individual, se submetem e se tornam mais um animal no rebanho humano. Uma pessoa pode trabalhar, comer, dormir, se reproduzir e não se envolver com o grande mistério da vida humana. Pode levar uma vida bem material, agradável ou não, e isso pode acontecer em qualquer camada social ou cultural. Acho que não é nem uma escolha, é a inércia, e eu não considero uma saída, mas acontece com freqüência.

O caminho do afastamento: há os que se recusam a participar da sociedade organizada. São os ascetas da Índia, os monges de várias religiões que se enclausuram em mosteiros e ermitões que se isolam em refúgios naturais. Todos esses se privam dos prazeres e moldam suas vidas por uma austeridade que fica longe daquela almejada liberdade. Eu os entendo porque eu mesma já tive vontade de viver afastada dos problemas cotidianos e me dedicar apenas ao espírito, mas foi só uma vontade passageira. Agora está aparecendo um movimento diferente nos Estados Unidos, os “hippies” tentam viver dentro da sociedade mas sem participar dos meios de produção, só consumindo o que eles mesmos fabricam. Duvido que consigam, ou você está dentro ou está fora.

O caminho do risco: há os que não se submetem à sociedade de maneira nenhuma, e por não enxergarem uma saída possível, arriscam a própria vida a ponto de perdê-la, como num sacrifício humano. É tudo ou nada, muita emoção no perigo da alta velocidade, nas viagens das drogas e na anestesia do álcool. O vício se instala inconscientemente e escraviza o consumidor afastando-o ainda mais da liberdade almejada.

O caminho do poder: há os que se marginalizam para usurpar o poder. Podem ser sumariamente banidos pela sociedade ou, em alguns casos, bem sucedidos. A marginalidade até pode levar ao poder constituído, mas a pessoa se torna escrava deste poder, sem a liberdade almejada. Aliás, no mundo da contravenção as leis são mais rígidas e implacáveis, não tem advogado para defender, não tem perdão. Existem os que detêm posições poderosas lícitas dentro da sociedade, para eles também a manutenção do poder é uma luta diária, sem descanso. Não só o dinheiro confere poder, mas algumas posições profissionais também além da chantagem,d a força física e da sedução. Há muitas formas de se exercer poder sobre outra pessoa ou sobre muitas pessoas ao mesmo tempo. O poder permite ao poderoso transgredir os códigos civis como matar, roubar, abusar, … O poderoso é um viciado e um escravo do poder porque no dia em que perder esse poder, ele será esmagado pelo novo poderoso e jamais terá liberdade de levar uma vida normal.

O caminho do boicote: há os que se submetem, mas não muito. São as pessoas que burlam as leis quando ninguém está vendo. Existe uma variação grande na intensidade de descumprimentos das leis. Reconheço que é um alívio, mas não é uma saída porque isso não ajuda, em nada, na realização dos sonhos pessoais, além de formar exímios incompetentes.
O caminho do conhecimento: A saída é manter-se vivo, dentro da sociedade e realizar os sonhos pessoais, o que significa recuperar a liberdade. A saída está na criação, mas o difícil é ser e poder ser criativo. Normalmente a sociedade se encarrega de cortar as asinhas de quem se atreve a ser criativo. Então é difícil, não é? É sim. Para isso você precisa saber como funciona o jogo do poder, precisa jogar o jogo para não se deixar destruir. Para saber como funciona o jogo do poder você precisa conhecer como funciona a mente humana, assim poderá se defender dos ataques. Criar é ousar além dos limites de proteção da sociedade sem se perder. Cada arte criada conta como foi a experiência do criador, você só precisa aprender a ler essas mensagens cifradas. Os mitos também falam disso. É uma luta interna, uma viagem pela mente, uma descida aos infernos e uma subida aos céus ao mesmo tempo. A mesma mitologia que tentou engessar o comportamento humano permite esse mergulho de auto conhecimento. Já foi tudo dito e escrito, só precisamos ler e entender. Os HERÓIS dos mitos ensinam o caminho e dão as dicas. Foi o desenvolvimento do conhecimento que propiciou a civilização do homem e a conseqüente perda da liberdade, e esse mesmo conhecimento permitirá a sua recuperação.

Existem também outras maneiras de atingir o auto conhecimento, mas esse é o que posso mostrar aqui nesses cadernos. As religiões, podem empurrar os fiéis para o conformismo se seguidas literalmente, mas também permitem um aprofundamento de auto conhecimento. A psicanálise é o método de auto conhecimento apoiado por um profissional. E qualquer pessoa pode ir fazendo elaborações esporádicas pela vida a fora, um livro interessante aqui, um filme emocionante ali, uma música, … demora, mas também é possível. Às vezes a própria vida nos obriga a entrar em contato com nosso íntimo.

Sem dúvida, o primeiro passo é ser um adulto independente, isto é, ser responsável pelo próprio sustento. Como poderia uma pessoa ser livre e dependente? Agora você depende dos adultos, mas isso vai acabar e um dia, quando você for adulto, crianças vão depender de você. Não se preocupe, você tem muito tempo para aprender uma profissão para poder realizar seus sonhos de liberdade. Por enquanto você pode usar bem seu tempo na escola, não pelos seus pais, mas por você mesmo.”

-Dá a impressão que vamos ter que batalhar muito pela vida a fora.
-É, para poder ser criativo temos que enfrentar o jogo do poder … E para isso temos que ter uma profissão, e ainda fazer o auto conhecimento, quanta coisa!…
-Será que vai dar para a gente fazer tudo isso e ainda se divertir?
Todos olharam para Lia com ar interrogativo.
-O que é? Vocês não pretendem se divertir na vida? … Tem gente que se diverte trabalhando! Eu pretendo escolher uma profissão bem legal.
-Engraçado, enquanto você foi lendo eu até podia reconhecer algumas pessoas nessas descrições. – disse Arco. Conheço muita gente conformada, sem graça, … tem os alienados, os que se arriscam pra caramba, … os poderosos filhos da puta, os que sempre atrapalham …
-É mesmo … AH! por falar nisso vocês não imaginam o que aconteceu ontem. – lembrou Íris. A dona da galeria onde minha mãe trabalha avisou que vai ter uma reforma. Ela já contratou o arquiteto e tudo! Sabem quem é?
-O nosso arquiteto, o hippie?
-Isso mesmo! Minha mãe quase caiu para trás quando ele entrou na sala. Mas ela não perdeu tempo, quando acabou a reunião foi logo mencionando o vazamento em cima da nossa mesa e ele prometeu resolver o problema.
-Vamos ver se ele cria vergonha e conserta logo.
-Vai ser difícil ele se esquivar tendo de encontrar a mamãe todos os dias na galeria.
-Vou continuar a ler porque estou interessado em saber como recuperar a minha liberdade…

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