“Vou contar para você alguns casos de ousadia para exemplificar essas afirmações. Todos os dias eu assisto a jovens encarando (ou fugindo de) uma nova experiência. Não tem época certa, a cada hora é chegada a Hora! A qualquer momento podemos começar uma aventura.

O fato de nascermos com algumas facilidades, também chamadas de “dom”, não quer dizer que a jornada será fácil, cada herói tem de batalhar muito para chegar à sua apoteose. O dom é um presente mas o esforço é todo seu.
Aliás, muitas vezes obtemos mais sucesso enfrentando nossas dificuldades do que seguindo as facilidades. As dificuldades nos mantêm em prontidão e as facilidades nos deixam despreocupados e, conseqüentemente, descuidados. Assim como na fábula da corrida do coelho com a tartaruga. O coelho estava tão confiante de sua superioridade que foi tirar uma soneca durante a corrida e acabou se atrasando, dando a vitória para a perseverante tartaruga.
Outro dia eu li uma notícia que vinha da Rússia. Lá um jovem trapezista caiu de elevada altura e ficou com as pernas paralisadas. Não se conformou com a idéia de nunca mais andar, e como lá não existia nenhum centro de reabilitação, ele começou a se exercitar sozinho. Demorou anos mas ele conseguiu andar e voltou a trabalhar no circo. Ele acredita tanto em seu método que começou a ajudar outras pessoas paralíticas a voltar a andar. Já conseguiu muito sucesso com seus pacientes, tanto que todos perguntam porque ele não abandona o circo e apenas cuida do centro de reabilitação que fundou? Ele responde que não pode abandonar o circo, lá ele aprendeu tudo, é a sua vida: “No fim do espetáculo, quando todos foram embora, eu me deito na arena e sinto toda a força que dela emana para meu corpo.”

É uma história linda e como essa existem muitas pessoas que enfrentaram sua pior dificuldade e ampliaram seus limites.

Muitas vezes a nossa dificuldade parece pequena para outra pessoa mas é um leão para nós. E o pior é que a gente mata um leão num dia e no dia seguinte aparece outro. Sua mãe, quando pequena, um dia ficou muito orgulhosa que tinha vencido a preguiça e arrumou a cama para me ajudar. No dia seguinte ela ficou indignada que tinha de arrumar a cama de novo! –“Todo dia?” ela perguntou. Sim, todo dia.

Li a história de uma cantora de ópera que gostava muito de cantar desde criança, estudava canto com muito entusiasmo, não tinha preguiça de acordar cedo, fazia todos os exercícios que mandavam, decorava todas as letras, apenas tinha uma dificuldade: tinha pavor do público. Sua mãe a fazia enfrentar o palco desde pequena, para que se acostumasse, mas era sempre difícil. Toda vez ela tinha de matar o leão. Ela só não desistiu porque sem o público ela jamais seria uma cantora de ópera. Hoje ela confessa que ainda tem medo de entrar no palco, mas que ela não vive sem ele.

Não sei se dá para perceber que o leão está dentro de nós mesmos. Pode ser o medo, a preguiça, o conformismo, … qualquer sentimento que nos dificulte a obtenção de sucesso em nossas tarefas.”

-Acho que isso responde nossas perguntas. Não é uma única aventura, são muitas pequenas aventuras.
-Outro dia eu ouvi um homem dizer na televisão que a grande aventura é se envolver com a vida de uma maneira profunda e pessoal.
-Se envolver é se arriscar, …sair do conforto …
-É… não é fácil…. acho que é para isso que as pessoas procuram as drogas, para ficar no conforto, anestesiadas, … Eu pensei nisso porque hoje acompanhei o Dino até a clínica. É tão difícil para ele sair de casa, ele tem medo de tudo … ele ainda precisa de muita proteção.
-Engraçado, eu também notei isso com a minha mãe. Ela está bem lá na clínica, eu pensei que ela se sentiria presa mas não, ela se sente protegida.
Tocou a campainha e Íris foi atender, era um encanador mandado pelo arquiteto para ver o que estava acontecendo no teto da sala. Os três se olharam com vontade de rir.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *