“Vou contar o mito do herói Teseu que é bem completo e dá para mostrar muitos dados ligados à educação do efebo, e outro tanto de dados ligados à estrutura dos mitos de heróis em geral. Você pode ler primeiramente a história toda do mito, ou pode ir acompanhando os comentários em azul:

Egeu, rei da Atenas, não conseguia ter um filho, tendo tentado já com várias esposas. Para resolver essa questão procurou o sábio Piteu, na cidade de Trezena. Este lhe entregou a própria filha como solução, e ela ficou grávida. Egeu, muito contente mas temendo pela segurança do filho, Teseu, deixou que este fosse criado pelo avô, que era um grande pedagogo. Antes de retornar a Atenas, Egeu escondeu ritualmente, sob uma rocha, sua espada e sandálias para que seu filho, na adolescência, se fosse suficientemente forte, retirasse suas coisas debaixo da grande pedra e o procurasse em Atenas.

Origem do herói: geralmente o herói (ou heroína) é filho de rei ou de um deus, ou de ambos. O herói pode ser uma pessoa que realmente existiu ou inventada. Muitas vezes a história de seu nascimento especial aparece depois da fama já estabelecida em adulto. Geralmente é um ser que precisa enfrentar adversidades desde o nascimento o que demonstra o seu caracter muito especial. Na verdade somos todos especiais, filhos do rei que reina em nosso reino particular.

Logo que Teseu atingiu a adolescência ele cortou os cabelos e o ofereceu a Apolo. Nesse momento sua mãe lhe revelou um grande segredo: naquela noite em que ela se deitara ao lado de Egeu, a deusa Atená apareceu-lhe em sonhos e lhe ordenou que fosse até uma ilha próxima do palácio e lá ela foi possuída pelo deus Possêidon, o verdadeiro pai de Teseu.

O corte de cabelo: todas as coisas usadas na cabeça como chapéus, coroas, capacetes, cocares, boinas, penachos, perucas, cartolas, penteados, … não são para a proteção da cabeça e sim para designar status social e de poder. Quanto mais imponente, maior a importância. O corte de cabelo é muito importante para demonstrar a decisão de mudança de situação. As freiras e os monges budistas cortam os cabelos significando o abandono das coisas materiais. Os soldados são obrigados a usarem o corte escovinha. A entrada na faculdade é comemorada com uma lustrosa careca. Atualmente os jovens deixam os cabelos compridos para protestar e marcar independência. Outro dia os professores de minha escola estavam implicando com os cabelos exuberantes de um rapaz. Como conheço o pai dele, completamente careca, eu pedi que o deixassem em paz para que pudesse aproveitar o cabelo enquanto tem. Mas, em geral, os adultos se ofendem muito com os cabeludos. É o famoso conflito de gerações. Estes cabeludos de agora serão os pais de amanhã e o uso de cabelos compridos vai ser a regra geral, então os jovens filhos poderão até raspar as cabeças para protestar. Quem sabe?

A aventura de um herói começa com um chamado: pode ser a ordem da mãe para que saia a procura do pai; pode ser o convite a um baile, como em Cinderela; pode ser a curiosidade de conhecer os arredores do castelo, como em Buda; pode ser um grão de feijão que cresce muito, como em João e o pé de feijão; pode ser uma infinidade de situações diferentes e imprevisíveis. Há os que ignoram a convocação, como a Bela adormecida, que se recusa a crescer e espera que algum príncipe venha salvá-la. A ninfa Dafne não encontrou quem a salvasse: ela fugiu do chamado de Apolo que a perseguiu por toda a planície “Ó ninfa, ó filha de Peneu, ficai. Eu que vos persigo não sou inimigo. Não sabeis de quem fugís e por isso fugís. Parai e perguntai quem vos ama.” Mas ela continuou fugindo e pediu: “Ó pai, transformai e destruí essa beleza que me dá esse encanto excessivo.” Tanto pediu que foi transformada na árvore Chorão, restou-lhe apenas a resplandecente beleza. MAS o herói que ousa aceitar o desafio vai viver a desejada e temida aventura.

Teseu foi levado pela mãe e pelo avô até o esconderijo e, com grande entusiasmo, o jovem ergueu a rocha, empunhou a espada, calçou as sandálias e partiu para procurar o pai em Atenas.

Novamente vamos imaginar um círculo em volta do herói. Dentro desse círculo estão todos os seus conhecimentos, o mundo seguro em que vive, e fora da linha moram os perigos. A sociedade tende a prender seus membros dentro dessa cerquinha protetora: “ – Não vá à floresta porque lá mora o lobo.” Essa linha, que faz o limite entre o conhecido e o desconhecido, vamos chamar de limiar. Sentado no limiar sempre há um ogro ou uma bruxa metendo medo para que o herói permaneça dentro dos limites. Mas na hora em que o herói se sentir pronto a atender o chamado, o ogro (ou bruxa) se torna um aliado fornecendo os amuletos necessários para a aventura. Nesse caso, o avô e a mãe (ogro e bruxa) mostram o lugar dos objetos mágicos que ajudarão Teseu na viagem.

O herói precisa se permitir ousar, e aí sua ousadia, antes tão temida, será sua aliada. Lembra quando eu falei do herói primitivo que ousou se aproximar do fogo? Ele precisou enfrentar todo o seu medo para se permitir essa ousadia.

No caminho para Atenas Teseu enfrentou muitos perigos:

1º – Perifetes, assassino cruel, coxo, apoiava-se em uma clava de bronze com a qual atacava os peregrinos que passavam na estrada. Teseu o matou e se apoderou da poderosa arma usando-a para punir os malfeitores.

2º – O gigante Sínis obrigava as pessoas a segurar firmemente o topo de um pinheiro que ele havia vergado até o solo, com a intenção de mantê-lo nesse estado. Invariavelmente a pessoa era arremessada longe, despedaçando-se no ar. Teseu subjugou Sines, amarrou-lhe os pés no topo de um pinheiro vergado, e a cabeça no topo de outro, não sobrando nada do gigante quando as árvores o lançaram no ar.

3º – Teseu eliminou com um golpe de espada Féia, a Porca de Crômion, monstruosa e antropófaga que aterrorizava as redondezas.

4º – Nas Rochas Cirônicas o perverso Cireu obrigava os passantes a lavar-lhe os pés num trabalho escravo, depois jogava-os ao mar para serem devorados por uma tartaruga monstruosa. Teseu também o venceu e o jogou à tartaruga.

5º – Teseu enfrentou e matou Damastes. Este colocava suas vítimas num leito de ferro e, se as pernas ultrapassassem a cama, cortava-as violentamente, se fossem menores, esticava-as cruelmente.

6º – Teseu matou o Cércion, gigante que desafiava todos os transeuntes, vencendo-os sempre.

A linguagem e a lógica usadas nos mitos sempre são as daquela época da primeira infância, aquelas que ficaram represadas no inconsciente. Lá no inconsciente estão todas as bruxas e monstros, os auxiliares e amuletos mágicos e, principalmente, todos os projetos ainda não realizados, os desejos. A tarefa do herói é deixar tudo claro (consciente) e resgatar as sementes dos projetos de vida.

As provas por que passam todos os heróis sempre têm a ver com as preocupações da época. O embate físico e a aplicação da justiça e o castigo ao malfeitor eram importantes no começo da civilização grega. Já na época de Édipo vemos a prova de inteligência e na época dos cavaleiros medievais era o embate religioso e a defesa das mulheres em perigo. Os heróis místicos como Moisés, Buda, Jesus e Maomé tiveram que passar por provas de sublimes virtudes. As provas variam muito e em cada uma podemos, ou não, entender o significado, mas com certeza, podemos encontrar dentro de nós um símbolo equivalente ao usado no mito antigo. As provas servem para medir o grau de comprometimento e a auto-confiança do herói.

Com o passar do tempo o embate de forças físicas foi literalmente substituído pelo esporte e por jogos de inteligência, como o xadrez.

Após derrotar todos os monstros, Teseu chega a Atenas e, com tantas mortes nas costas, ele precisou se purificar no rio Cefiso. Vestido com uma luxuosa túnica branca e com os cabelos cuidadosamente penteados, numa aparência tão feminina, Teseu chamou a atenção de alguns pedreiros que passavam. Estes caçoaram dele que, indignado, ergueu um carro de bois e o atirou nos indesejosos.

Teseu entrou no palácio de Atenas incógnito. Para chamar a atenção do rei, puxou a espada para cortar a carne que era servida. Foi imediatamente reconhecido por Egeu que o abraçou e o proclamou seu sucessor.
Este rei enfrentava um grande problema: após uma guerra, quando Atenas perdeu para Creta, os atenienses se comprometeram a enviar ao rei Minos, anualmente, sete moças e sete moços que seriam jogados ao Minotauro, monstro que habitava o famoso Labirinto subterrâneo. Aquele que conseguisse matar o monstro poderia voltar livremente para sua pátria.

Aquela era a época do terceiro envio e Teseu se ofereceu para ir entre os jovens com a intenção de vencer o Minotauro e libertar os atenienses da tirania de Minos. Na partida, Egeu entregou ao filho dois jogos de velas. Na volta do barco para Atenas, caso saíssem vitoriosos, deveriam usar o jogo de velas brancas, caso contrário, deveria ser usado o de cor preta em sinal de luto.

No barco a caminho para Creta, Minos duvidou da nobreza de Teseu e desafiou-o a buscar um anel jogado ao mar. Teseu mergulhou e foi imediatamente recebido no palácio do seu verdadeiro pai, Possêidon, que lhe devolveu o anel.

Apoteose: em todo mito, depois de todas as provas vencidas há a apoteose que pode ser o encontro com o pai ou com a deusa. Conta uma lenda que cinco irmãos viram-se sedentos no meio da floresta. O primeiro foi buscar água no poço e encontrou, de sentinela, a velha mais feia que tinha visto. Ela só o deixaria pegar água se ele lhe desse um beijo. Ele e os próximos três irmãos se negaram a beijá-la. O último, ao contrário, disse-lhe: “Além do beijo dou-te também um abraço.” Feito isso, ela se transformou na moça mais bela do mundo. A deusa é a própria vida, a sempre mãe e sempre virgem, a promessa de vida e de morte, é o útero e o túmulo. Aquele que puder vê-la como realmente é, e não sentir medo, será o rei todo poderoso de seu reino.

Outra lenda conta que quando os Gêmeos Navajos finalmente encontraram o pai Sol este disse: “Eu gostaria que fossem realmente meus filhos.” Mas o terrível pai tentou sufocar os garotos, colocando-os num poço cheio de vapor super aquecido. Os ventos os auxiliaram fornecendo um refúgio seguro. O pai ainda os obrigou a fumar um cachimbo venenoso, mas a lagarta tinha fornecido algo para proteger a boca e eles fumaram até o fim. Finalmente o pai, orgulhoso, disse: “Bem, meus filhos, o que querem de mim?” O pai também é a vida e a morte, assim como a deusa.
A passagem é feita através de uma morte para a etapa anterior e um renascimento para a nova fase. O herói é aquele que nasceu duas vezes: tornou-se, ele mesmo, o pai.

Na chegada do navio a Creta, Ariadne, filha de Minos, logo se apaixonou por Teseu e, obtendo dele a promessa de casamento, ela lhe entregou um novelo de fios que ele deveria desenrolar dentro do labirinto para achar o caminho de volta. Teseu enfrentou e derrotou o Minotauro, conduziu todos os companheiros para fora do labirinto e, após destruir os navios cretenses, navegou de volta para Atenas levando Ariadne consigo.

A entrada num labirinto, ser engolido por um peixe, descer aos infernos são todos símbolos de morte e renascimento.

No caminho de volta para Atenas, o navio ateniense fez uma escala na ilha de Naxos. Na manhã seguinte, na praia, Ariadne acordou só, tinha sido abandonada por Teseu. Ela avistou ao longe as velas pretas do barco do amado indo embora. Distraído, Teseu se esqueceu de trocar as velas quando estava chegando em Atenas. Seu pai, Egeu, esperava ansiosamente a volta do filho na beira de um penhasco e quando avistou as velas negras, inconsolável, atirou-se do penhasco morrendo no mar.

O problema com o herói humano é que ele pode se embebedar com o poder que recebe e virar um tirano. Minos tinha sido um herói e se transformou em tirano. Por isso foi necessário a vinda de um jovem herói para dar início a uma nova era. Teseu entrou no labirinto mas matou o monstro de Minos e não o seu próprio. Teseu também vai, mais tarde, tornar-se um tirano.

Após a morte de Egeu, Teseu assumiu o poder em Atenas. A cidade progrediu e tornou-se a capital da Ática. Construiu o Senado, promulgou leis importantes, adotou o uso de moeda e aumentou o território.

O retorno: “ Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes.” (Joseph Cambell)

Alguns heróis se sentem tão bem nessa zona mágica que não querem retornar. Buda pensou reter a sabedoria que obtivera só para si e foi preciso que Brahma lhe implorasse para que se tornasse mestre dos deuses e dos homens. Conta-se, também, que alguns santos faleceram enquanto estavam em êxtase celeste, não quiseram voltar à vida comum de antes.

Outros heróis, aqueles que obtiveram o triunfo à revelia de algum tirano, precisaram fugir para completar o retorno. A fuga é um episódio comum nos contos folclóricos e geralmente o herói é ajudado e resgatado por forças mágicas.

A volta do mundo mágico para a realidade é difícil, a recepção pode não ser acolhedora: muitos foram os mártires. Existe um choque entre a sabedoria trazida das profundezas e a prudência costumeira no mundo da luz. A benção trazida do mundo mágico torna-se logo racionalizada e ridicularizada, assim como um sonho que parecia importante à noite torna-se mera tolice à luz do dia. O próprio herói precisa acreditar na sua aventura e sobreviver ao impacto mantendo a auto confiança. O artista é aquele que tem livre trânsito entre os dois mundo e ainda tenta traduzir, de infinitas maneiras, aquela verdade que já foi dita muitas vezes e entendida de maneira errada.

Com a amazonas Antíope Teseu teve um filho, Hipólito. Mais tarde Teseu se casou com a irmã de Ariadne, Fedra e … a história de Fedra eu já contei. Só para completar, Ariadne que foi abandonada se casa com o deus Dioniso.

Eu espero que você consiga, de agora em diante, entender e saborear esse tipo de história. Na verdade eu espero que você, em sua própria vida, saiba reconhecer um chamado e tenha a coragem de se aventurar atrás da sua bem aventurança, isso é, ir atrás de suas realizações enfrentando todos os obstáculos.”

Íris parou de ler e ficou olhando o teto. Todos estavam pensativos talvez pensando em suas próprias aventuras. Quando elas iriam começar?

-Alguém sabe qual é a sua bem aventurança? – perguntou Arco.
-Acho que é aquilo que a gente realmente deseja. Eu ainda não tenho certeza qual é. – respondeu Íris.
-Eu tenho tantos desejos! Preciso escolher um só? – comentou Lia.

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