“Esses rituais de passagem serviam para afastar a mente do padrão de símbolos típico da fase que vai ficar para trás e oferecer os novos símbolos da nova condição.

O símbolo é como um resumo de uma verdade, do mesmo jeito que numa única gota da água do mar encontramos a essência de todo o oceano.

A nossa sociedade atual não oferece mais rituais organizados para ajudar nas passagens de uma fase à outra. Espera-se que o jovem sinta o interesse de amadurecer espontaneamente, isso pode demorar até os 40 anos, ou mesmo, pode nunca acontecer.

Como não abandonamos os símbolos da primeira infância, e esses são muito pessoais, nosso convívio torna-se bem difícil.

Agora pouco passei por uma experiência interessante. Depois de replantar uns vasos e mexer na terra cheia de estrume, lavei bem as mãos e passei álcool. O cheiro desse produto me trouxe lembranças antigas e, de um momento para o outro, eu era uma menininha de novo. Lembrei-me de quando minha mãe friccionava álcool em meu corpo ao sair do banho nos dias frios e também quando ela derramava o líquido sobre minha pele queimada de sol nos dias de praia. Sempre o álcool me recorda carinho e alívio. Ao mesmo tempo lembrei de uma briga que tivemos, Herculano e eu, em nossa “Lua de mel”. Eu inventei de passar álcool em suas costas queimadas e ele ficou furioso e se sentiu agredido. A lembrança que ele guardava da infância era esse líquido entrando em seus olhinhos e todos os machucados de criança ardendo ao mesmo tempo.

É difícil querer transportar nossos símbolos pessoais para os outros. São personalíssimos. Muitas vezes estão apagadinhos em nossa memória ou mesmo, escondidos no inconsciente. Mas eles são importantes, podemos acolher e tentar entender esses “mensageiros” do inconsciente. Essas lembranças podem ser monstros ameaçadores ou fiéis aliados trazendo a chave que abrirá importante porta. Quando ouvimos as histórias dos heróis podemos procurar os símbolos correspondentes que trazemos dentro de nós mesmos, isto é, podemos decifrar a linguagem simbólica que era usada há muito tempo atrás e colocar nossa mente em sintonia para aprender as lições. Elas podem nos ajudar a fazer as passagens.”

-Eu ainda não entendi como as histórias podem ajudar. – falou Lia inconformada.
-Dá um tempo. Ela vai explicar

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